


Este blog foi criado com um propósito terapêutico para o sistema nervoso central. É um produto genérico que provoca sonolência, bocejo, fadiga mental e, em casos raros, uma certa irritação.
Falando em Narciso, não poderia deixar de referir um dos meus artistas preferidos: Salvador Dalí. Segundo registros históricos, a inspiração de Dalí para esta pintura veio de uma conversa ouvida por acaso entre dois pescadores, que falavam sobre um homem da região que ficava a admirar-se ao espelho por horas a fio. Um desses pescadores descreveu o vaidoso homem como tendo um “bulbo na cabeça”, expressão coloquial catalã para quem era mentalmente doente. Dalí combinou esta imagem com o mito grego de Narciso para compor a obra.À direita de Narciso está a forma de uma mão a segurar um ovo, do qual nasce a flor. Esta imagem adopta exactamente a mesma forma e postura do seu corpo. A racha no ovo combina com a sombra do cabelo de Narciso, e também com a fissura na unha do polegar, dando à mão um caráter petrificado, surreal, mais adequado ao estilo de Dalí do que seria uma mão de aparência realista. Podemos aqui fazer um paralelo do simbolismo que a unha tem numa técnica oriental chamada Leitura Corporal, na qual cada parte e sintoma do corpo tem uma correspondência emocional. Segundo essa ideia, a unha corresponde à autoconfiança do indivíduo, podendo ser considerada mais forte ou mais frágil, dependendo da constituição física. Neste caso, e por ser o polegar simbolicamente o dedo da auto-afirmação, a racha pintada por Dalí pode ser lida como a quebra e a morte da vaidade. Além disso, a racha pode ser ainda ligada à maneira com que Dalí frequentemente se referia à sua personalidade: metade uma pessoa ordinária, metade um génio, o que reforça a ideia de que o quadro possa ser um auto-retrato.
O ovo, que tem forte simbologia em muitas culturas, geralmente representa o nascimento do mundo, é o poder criador da luz. É a renovação periódica da natureza, a ressurreição, a casa que protege e aprisiona. Segundo a Alquimia, o ovo é o germe de uma vida espiritual: o sujeito e o lugar de todas as transmutações - neste caso, a própria metamorfose de Narciso. Está usualmente ligado também ao umbigo, ao centro de si mesmo e do mundo e, estando representado como a cabeça de Narciso, é a própria fonte de sua vaidade, que o mata, mas também gera a vida. A imagem deste ovo é repetida várias vezes noutras pinturas de Dalí. Ele dizia que, nesta obra, o ovo que dava origem à flor fora inspirado na tal expressão catalã “ele tem um bulbo na cabeça”.
A flor de Narciso, cuja etimologia é narke, de onde vem narcose, está usualmente ligada a cultos infernais. Simboliza o entorpecimento da morte, mas uma morte que não seja talvez senão o sono. Cresce na primavera, o que a liga ao símbolo das águas, à fecundidade. Encerra, assim, a ambivalência morte-renascimento. É como o Narciso de Dalí, que morre, mas dá origem à vida. A água serve de espelho, mas um espelho aberto sobre as profundezas do eu. Da imagem, pode-se apreender também que a mão que dá à luz à vida, por meio do nascimento da flor pelo ovo, está deliberadamente localizada fora da água, que é geralmente associada à vida. Seria esta uma inversão de papéis entre aquilo que simboliza a vida e o que representa a morte, que é a terra árida sobre a qual a mão assenta. Curiosamente, a flor de Narciso não é em si mesma um exemplo radiante de flor mas, em vez disso, uma imagem desgastada, quase uma sombra da haste erecta que quebra a casca do ovo.
A mesma forma, que repete os contornos de Narciso, ocorre novamente no topo da montanha, coberta de neve. A imagem está a derreter, o que nos remete mais uma vez à ideia da morte de Narciso, principalmente pelo facto de estar directamente sobre a figura do mito, noutra circunstância: a imagem de um belo rapaz, provavelmente o próprio Narciso, que permanece em pé, sobre um pedestal, admirando seu corpo. Abaixo dele há um piso quadriculado, como um tabuleiro de xadrez. Não há outros jogadores no tabuleiro, o que indica que eles podem ter sido colocados numa escala abaixo da de Narciso, demonstrando sua superioridade hierárquica. Ele é peça do jogo, e joga sozinho. O tabuleiro de xadrez, simbolicamente, é uma representação da alternância entre a sombra e a luz, o yin e o yang, divisão presente também no psiquismo humano. É a aceitação e o domínio da alternância branca e negra, entusiasmo e controle, exaltação e contenção de desejos. Essa repetição de imagens, recorrente na obra de Dalí, foi usada por ele nesta pintura para demonstrar a sua famosa técnica de imagem dupla, na qual as figuras são pintadas na tela de maneira a que, vendo a primeira, o observador não consiga compreender na sua totalidade o que está a ser mostrado. Essa imagem dupla é complementada também pelo reflexo de Narciso na água.
À direita do quadro, em primeiro plano, existe um cão que rasga uma carne, quase uma carcaça, talvez representando a morte de algo que algum dia já foi belo. Formigas, que são um tema recorrente nas pinturas de Dalí, escalam a mão petrificada, representando a deterioração, a decomposição e, novamente, a morte. Aglomeram-se na base e seguem seu caminho em direção à flor de Narciso, ameaçando a sua existência.
O fundo do quadro compreende rochas similares às retratadas por Leonardo Da Vinci nas suas pinturas, tais como Mona Lisa e A Virgem das Rochas. Elas também lembram os rochedos da costa catalã, terra natal de Dalí, imagens que invadem praticamente todas as suas obras. É notável também a presença de nuvens pesadas, um céu que anuncia uma tempestade: novamente a ideia da morte é retratada, da mesma forma que escureceu o céu na ocasião da morte de Jesus Cristo.
Há quem discuta se a metamorfose do título está em Narciso que se transforma na imagem da mão com o ovo, ou o contrário. A primeira ideia é mais facilmente assimilada através da simbologia das imagens. Narciso é apresentado como um objecto inanimado, sem vida, como uma forma crisálida. A mão tornou-se, além da forma de Narciso morto, uma mão que agora segura uma nova vida na forma de uma flor. O próprio Dalí disse que esta pintura tratava sobre a morte e petrificação de Narciso.
Dalí acreditava que, ao cair na armadilha de apaixonar-se pela sua própria imagem, Narciso estava a estudar seu reflexo assim como um artista faz quando está a pintar o seu auto-retrato. Esta é uma história de profundo auto-conhecimento. Segundo a Psicanálise, amplamente estudada e utilizada pelos surrealistas nas suas obras, o narcisismo nem sempre é neurótico: tem também um papel positivo na obra estética. Dalí funde a visão tradicional do mito com a interpretação da Psicanálise freudiana.
Com tons terrosos e áridos, que remetem à morte, Dalí retratou a morte da vaidade, mas uma morte que faz brotar o novo, o belo. Vaidoso como poucos homens públicos de que se tem notícia, e odiado pelos seus contemporâneos exactamente por causa disso, Dalí pode ter retratado nesta obra a morte de seu próprio ego. No entanto, essa morte é apenas aparente, porque é da mente desse ego que nasce a vida, que surge a criação. E foi graças a essa egolatria exacerbada que, em vez de se recolher ao próprio talento, como tantos artistas o fazem, Dalí conseguiu mostrar-se ao mundo dessa maneira gratamente irreversível, quase como uma missão de dividir conosco, pobres mortais, um pouco de sua genialidade.
A lenda de Narciso, surgida provavelmente da superstição grega segundo a qual contemplar a própria imagem prenunciava má sorte, possui um simbolismo que fez dela uma das mais duradouras da mitologia grega. Narciso era um jovem de singular beleza, filho do deus-rio Cefiso e da ninfa Liríope. No dia de seu nascimento, o adivinho Tirésias vaticinou que Narciso teria vida longa desde que jamais contemplasse a própria figura. Indiferente aos sentimentos alheios, Narciso desprezou o amor da ninfa Eco - segundo outras fontes, do jovem Amantis - e o seu egoísmo provocou o castigo dos deuses. Ao observar o reflexo de seu rosto nas águas de uma fonte, apaixonou-se pela própria imagem e ficou a contemplá-la até consumir-se. A flor conhecida pelo nome de Narciso nasceu, então, no lugar onde morrera. Noutra versão da lenda, Narciso contemplava a própria imagem para recordar os traços da irmã gémea, morta tragicamente. Foi, no entanto, a versão tradicional, reproduzida no essencial por Ovídio em Metamorfoses, que se transmitiu à cultura ocidental por intermédio dos autores renascentistas. Na psiquiatria e particularmente na psicanálise, o termo narcisismo designa a condição mórbida do indivíduo que tem interesse exagerado pelo próprio corpo.
Recebi hoje a história do arroba por e-mail, que passo a partilhar (oh, não!! Mais um post gigante!! já ninguém aguenta tanta palavra junta!!):
Esta é a história da mulher que, no século VII, em plena dinastia Tang, se tornou Imperatriz Suprema da China, desafiando o poder dos homens e os tabus de toda uma época. Escolhida aos 13 anos para servir de concubina na Cidade Proibida, acabaria por marcar o seu tempo de forma fulgurante. Passou pela guerra e pela fome, conheceu as conspirações e as traições, tudo viveu e a tudo sobreviveu. Aos 29 anos, recebeu o título de Imperatriz, tomando o lugar do Imperador na alvorada dos 50. Com ela, e através, a China viveu um dos períodos mais esplendorosos da sua civilização.
Este livro deixa-nos colados à cadeira, petrificados, de lágrima no canto do olho. É lindo e terrível. São trezentas e tal páginas de tortura e sofrimento. O romance conta a história de uma praga de cegueira, inexplicável e incurável, que começa num homem sentado no trânsito e, lentamente, se espalha pelo país. À medida que os afectados pela epidemia são colocados em quarentena, em condições desumanas, e os serviços civis começam a falhar, a história segue a mulher de um médico, a única pessoa que não é afectada pela doença que cega todos os outros. O romance mostra-nos o desmoronar completo da sociedade que, por causa da cegueira, perde tudo aquilo que considera como civilização e, (tal como em A Peste, de Albert Camus) mais que comentar as facetas básicas da natureza humana à medida que elas emergem numa crise de epidemia, Ensaio sobre a cegueira mostra a profunda humanidade dos que são obrigados a confiar uns nos outros quando os seus sentidos físicos os deixam. O brilho branco da cegueira ilumina as percepções das personagens principais, e a história torna-se não só um registo da sobrevivência física das multidões cegas, mas também das suas vidas espirituais e da dignidade que tentam manter.
Saramago nunca foi fácil, mas este livro não é para toda a gente. O romance conta a história da vida de Jesus de uma maneira moderna e não-religiosa. O seu conteúdo, que humaniza a vida de Jesus e alude de forma sub-reptícia a uma sua eventual relação matrimonial - ou no mínimo marital - com Maria Madalena, fez com que muitos considerassem o livro blasfemo. Entre eles, o então secretário de Estado adjunto da Cultura, Sousa Lara, que o vetou de uma lista de romances portugueses candidatos a um prémio literário europeu. Em reacção a este acto censório, Saramago abandonou Portugal, passando a residir até hoje na ilha de Lanzarote, nas Ilhas Canárias.
Cisnes Selvagens (de Jung Chang) é um relato intenso, feito na primeira pessoa, sobre a vida de três gerações de mulheres (ela, a mãe e a avó), que viveram na China do século vinte.É ao mesmo tempo um livro histórico. Quando a avó da autora nasceu, em 1909, os seus pés foram ligados, num ritual tradicionalmente chinês que usa este método para que os pés das mulheres não se desenvolvam e se tornem pequenos. Com 15 anos foi dada a um general como concubina. A sua filha, De-hong, cresceu na Manchúria sob ocupação japonesa e russa e teve um papel activo, fazendo parte do movimento clandestino comunista. A vitória de Mao Tsé-tung marcou o começo de uma revolução a vários níveis. A partir daí tudo renasce mas nem tudo se altera. Este livro é acima de tudo um importante documento histórico que nos ajuda a conhecer e compreender melhor a cultura chinesa, as suas tradições, e toda a tumultuosa história da China.
Em 1 de Julho de 1853 foram colocados à venda os primeiros selos de correio portugueses. Tratava-se dos selos de 5 e 25 reis, com o busto, em perfil, da monarca, D. Maria II, num cunho aberto por Francisco de Borja Freire. O selo de 100 réis foi posto à venda no dia 2 e o de 50 réis só no dia 22 dos mesmos mês e ano.
Esta lenda passa-se em 1149, na véspera da reconquista de Loulé aos Mouros pelo Mestre D. Paio Peres Correia. Loulé estava sob domínio dos mouros e seu governador tinha três belas filhas: Zara, Lídia e Cassima, que era a mais nova. Quando D. Peres se encontrava no exterior da muralhas da cidade pronto para conquistar a cidade, o governador levou as suas filhas até uma fonte onde as encantou, com o objectivo de as preservar de um possível cativeiro. Contudo, o governador nessa noite conseguiu fugir para Tânger, deixando as suas filhas para trás.
Em tempos muito antigos, quando o rei Rodrigo perdeu a batalha de Guadalete e os Mouros ocuparam a Península Ibérica e ordenaram que todas as igrejas fossem convertidas em mesquitas muçulmanas, os cristãos de Valência, entre eles um deão (decano), quiseram pôr a salvo o corpo do mártir S. Vicente que estava guardado numa igreja. Com intenção de chegarem às Astúrias por barco, fizeram-se ao mar levando consigo o corpo do santo. Cruzaram o Mediterrâneo sem perigo, mas quando chegaram ao Atlântico o mar estava mais turbulento e foram forçados a aproximar-se da costa. Perguntaram então ao mestre da embarcação qual era aquela terra tão bela e aquele cabo que avistavam. O mestre respondeu-lhes que a terra se chamava Algarve e que o cabo se chamava promontório Sacro. Foi então que os cristãos de Valência consideraram a hipótese de desembarcar, construir um templo em memória de S. Vicente e dar o nome do santo ao cabo mais ocidental, junto ao promontório de Sagres. Mas enquanto estavam nestas considerações, o barco encalhou, o que os forçou a passar ali a noite. Na manhã seguinte, quando se preparavam para retomar viagem, avistaram um navio pirata. O mestre da embarcação propôs-lhes afastar-se com o navio para evitar a abordagem dos corsários, enquanto os cristãos se escondiam na praia com a sua relíquia. Depois viria buscá-los. Mas o barco nunca mais voltou e os cristãos ficaram naquele lugar, construíram o templo em memória de S. Vicente e formaram uma pequena aldeia à sua volta, isolados naquele lugar ermo. Entretanto D. Afonso Henriques entrou em guerra com os mouros do Algarve e estes vingaram-se dos cristãos de S. Vicente, arrasando-lhes a aldeia e levando-os cativos. Passados cinquenta anos um cavaleiro veio avisar D. Afonso Henriques que existiam cativos cristãos entre os prisioneiros feitos numa batalha contra os Mouros. Chamados à presença do rei, o deão, já muito velho, contou-lhe a sua história e confidenciou-lhe que tinham enterrado o corpo de S. Vicente num local secreto. Pedia ao rei que resgatasse o corpo do mártir para um local seguro. D. Afonso Henriques aproveitou um período de tréguas na sua luta contra os Mouros e zarpou num barco com o deão a caminho de S. Vicente. Mas o deão morreu durante a viagem e sem saber o local exacto onde estava enterrado o santo, D. Afonso Henriques aproximou-se do cabo e das ruínas do antigo templo. Foi então que avistou um bando de corvos que sobrevoavam um certo lugar onde os seus homens escavaram e encontraram o sepulcro de S. Vicente, escondido na rocha. Trouxeram o corpo de S. Vicente de barco para Lisboa e durante toda a viagem foram acompanhados por dois corvos, cuja imagem ainda hoje figura nas armas de Lisboa em testemunho desta história extraordinária.
No tempo em que Silves pertencia aos Mouros, vinha o rei Mohamed a passear a cavalo quando encontrou um destacamento do seu exército que trazia reféns cristãos. Entre estes estava uma lindíssima jovem, sumptuosamente vestida, acompanhada da sua aia, filha de um nobre morto durante o saque ao seu castelo. Mohamed ordenou que a nobre dama fosse levada para o seu castelo, onde a rodeou de todas as atenções, e lhe pediu que abraçasse a fé de Maomé para se tornar sua mulher. A jovem chorou de desespero porque Mohamed não lhe era indiferente, mas a sua aia encontrou a solução: ambas renegariam a fé cristã apenas exteriormente para agradar ao rei mouro e possibilitar o casamento. Passado algum tempo, nasceram três gémeas a quem os astrólogos auspiciaram beleza, bondade e ternura, para além de inteligência, mas avisaram o rei que este deveria vigiá-las quando estas chegassem à idade de casar. O rei não as deveria confiar a ninguém. Passaram alguns anos e a sultana morreu, ficando a aia, que tinha tomado o nome árabe de Cadiga, a tomar conta das jovens. Quando estas eram adolescentes o rei levou-as para um castelo longe de tudo, onde havia apenas o mar por horizonte. As princesas tornaram-se mulheres, mas embora gémeas tinham personalidades muito diferentes. A mais velha era intrépida, curiosa, porte distinto e de olhar insinuante e profundo. A do meio era a mais bela, de uma singular beleza e apreciava tudo o que era belo, as jóias, as flores e os perfumes caros. A mais nova era a mais sensível. Tímida e doce, passava horas a olhar o mar sob o luar prateado ou o pôr-do-sol ardente.
A noite de S. João é, desde tempos imemoriais, a noite das mouras encantadas. A tradição conta que no castelo de Tavira existe uma moura encantada que todos os anos aparece nessa noite para chorar o seu triste destino. Os mais antigos dizem que essa moura é a filha de Aben-Fabila, o governador mouro da cidade que desapareceu quando Tavira foi conquistada pelos cristãos, depois de encantar a sua filha. A intenção do mouro era voltar a reconquistar a cidade e assim resgatar a infeliz filha, mas nunca o conseguiu. Existe uma lenda que conta a história de uma grande paixão de um cavaleiro cristão, D. Ramiro, pela moura encantada. Foi precisamente numa noite de S. João que tudo aconteceu. Quando D. Ramiro avistou a moura nas ameias do castelo, impressionou-o tanto a sua extrema beleza como a infelicidade da sua condição. Perdidamente enamorado, resolveu subir ao castelo para a desencantar. A subida através dos muros da fortaleza não se revelou tarefa fácil e demorou tanto a subir que, entretanto, amanheceu e assim passou a hora de se poder realizar o desencanto. Diz o povo que a moura, mal rompeu a aurora, entrou em lágrimas para a nuvem que pairava por cima do castelo, enquanto D. Ramiro assistia sem nada poder fazer. A frustração do jovem cavaleiro foi tão grande que este se empenhou com grande fúria nas batalhas contra os Mouros. Conquistou, ao que dizem, um castelo, mas ficou sem moura para amar...
A origem do nome da povoação de Algôs, e a sua respectiva grafia, divide as opiniões dos seus habitantes. Uns afirmam que o nome desta povoação, que já existia no tempo dos romanos, lhe foi atribuído por D. Fernando I, rei de Leão, quando ali passou a caminho de Silves. Um dos seus homens achou a povoação tão insignificante que nem valeria a pena que nela se demorassem, ao que o rei retorquiu: "Algo es!". E assim se ficou a chamar Algoes e depois Algôs.

À entrada da vila de Monchique existe uma imagem de Santo António com um manto azul bordado a ouro que lhe foi oferecido por uma jovem em agradecimento por o santo lhe ter arranjado casamento. Mas a verdade é que este casamento não foi tão feliz como a jovem esperava. O marido tratava-a mal apesar da gravidez anunciada da mulher. Nasceu uma filha que cresceu entre discussões azedas até que aos oito anos a menina decidiu apelar para a bondade de Santo António pôr termo a tamanho martírio. Ajoelhou-se junto à sua imagem e prometendo-lhe que nunca lhe faltariam flores, a menina sentiu após algumas horas que alguém lhe batia no ombro. Um homem estranho e atraente perguntou-lhe porque estava ali e pediu-lhe algo para comer e um sítio para descansar. A menina levou-o para sua casa e enquanto que a mãe acolheu o visitante o pai resmungou pelo atrevimento da filha. O visitante dirigiu-lhe frases apaziguadoras, alertando-o para o facto de que estava a desperdiçar uma felicidade que estava perfeitamente ao seu alcance: a de viver em harmonia com a sua mulher e a sua filha. Como que encantado pelas palavras do visitante, o homem ajudou pela primeira vez a sua mulher a preparar a refeição e sentiu que iniciava nesse instante uma vida nova. Quando voltaram à sala, o estranho homem tinha desaparecido e no seu lugar estava uma pequena imagem de Santo António, semelhante à que se encontrava no nicho da vila. A notícia do milagre correu a aldeia e a partir daquele dia aquela casa encheu-se de felicidade e ao santo nunca mais faltaram as flores.
A vila de Salir, no Algarve, deve o seu nome à filha do alcaide de Castalar, Aben-Fabilla, que fugiu quando viu o seu castelo ameaçado pelo exército de D. Afonso III. Antes de fugir, o alcaide enterrou todo o seu ouro, pensando vir mais tarde resgatá-lo. Quando os cristãos tomaram o castelo encontraram-no vazio, à excepção da linda filha do alcaide que rezava com fervor que tinha preferido ficar no castelo e morrer a "salir". De um monte vizinho, Aben-Fabilla avistou a filha cativa dos cristãos e com a mão direita traçou no espaço o signo de Saimão, enquanto proferia umas palavras misteriosas. Nesse momento, o cavaleiro D. Gonçalo Peres que falava com a moura viu-a transformar-se numa estátua de pedra. A notícia da moura encantada espalhou-se pelo castelo e um dia a estátua desapareceu. Em memória deste estranho fenómeno ficou aquela terra conhecida por Salir, em homenagem pela coragem de uma jovem moura. Ainda hoje no Algarve se diz que em certas noites a moura encantada aparece no castelo de Salir.
Há muitos e muitos séculos, antes de Portugal existir e quando o Al-Gharb pertencia aos árabes, reinava em Chelb, a futura Silves, o famoso e jovem rei Ibn-Almundim que nunca tinha conhecido uma derrota. Um dia, entre os prisioneiros de uma batalha, viu a linda Gilda, uma princesa loira de olhos azuis e porte altivo. Impressionado, o rei mouro deu-lhe a liberdade, conquistou-lhe progressivamente a confiança e um dia confessou-lhe o seu amor e pediu-lhe para ser sua mulher. Foram felizes durante algum tempo, mas um dia a bela princesa do Norte caiu doente sem razão aparente. Um velho cativo das terras do Norte pediu para ser recebido pelo desesperado rei e revelou-lhe que a princesa sofria de nostalgia da neve do seu país distante. A solução estava ao alcance do rei mouro, pois bastaria mandar plantar por todo o seu reino muitas amendoeiras que quando florissem as suas brancas flores dariam à princesa a ilusão da neve e ela ficaria curada da sua saudade. Na Primavera seguinte, o rei levou Gilda à janela do terraço do castelo e a princesa sentiu que as suas forças regressavam ao ver aquela visão indiscritível das flores brancas que se estendiam sob o seu olhar. O rei mouro e a princesa viveram longos anos de um intenso amor esperando ansiosos, ano após ano, a Primavera que trazia o maravilhoso espectáculo das amendoeiras em flor.